Crédito consignado: tecnologia e atendimento no futuro

Crédito consignado: tecnologia e atendimento no futuro

O crédito destinado às pessoas físicas cresceu 10,5% em 12 meses e alcançou R$ 4,7 trilhões em agosto de 2026, segundodados do Banco Central. Os números refletem a importância crescente do financiamento na economia brasileira e reforçam uma questão para o setor: oferecer juros competitivos continua sendo fundamental, mas já não é suficiente para definir quem estará preparado para atender às demandas dos consumidores nos próximos anos.

Historicamente, o crédito consignado conquistou espaço por oferecer condições mais acessíveis em comparação a outras modalidades de empréstimo pessoal. O desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento ou no benefício previdenciário reduz o risco das operações e permite que as instituições trabalhem com taxas mais atrativas. 

Setembro mostrou o quanto a regra pesa. Após discussões e alterações legislativas, a margem consignável para aposentados e pensionistas do INSS foi restabelecida em 45% e as contratações do consignado do INSS cresceram com força já no mês seguinte. Quando a regra abre espaço, a demanda aparece rápido; o que define se esse crédito chega bem ao aposentado é a qualidade de quem o atende.

Entretanto, a evolução do mercado exige uma visão mais ampla sobre competitividade. O consumidor não busca apenas uma taxa de juros menor. Ele também espera facilidade para contratar, clareza nas informações, agilidade na liberação dos recursos e segurança durante toda a operação. Isso significa que simular, contratar e acompanhar o contrato sem atrito, tende a ganhar tanta relevância quanto as condições financeiras apresentadas.

A tecnologia desempenha um papel decisivo nessa transformação. A digitalização de processos, a integração de sistemas e o uso de ferramentas mais avançadas de análise de dados permitem reduzir etapas burocráticas, aprimorar a avaliação das operações e acelerar a tomada de decisões. Para as instituições, esses avanços representam ganhos de produtividade. Para os consumidores, significam menos obstáculos entre a necessidade de crédito e o acesso efetivo aos recursos.

Mas existe um aspecto dessa transformação que merece atenção. A digitalização não elimina a importância do relacionamento humano. O Brasil reúne consumidores com diferentes níveis de familiaridade com ferramentas digitais, além de realidades econômicas e sociais bastante distintas. Enquanto alguns preferem realizar toda a contratação pelo celular, outros valorizam a possibilidade de conversar com um profissional, esclarecer dúvidas e compreender melhor as alternativas disponíveis.

Por isso, acredito que um dos caminhos mais promissores para o consignado está na integração entre tecnologia e atendimento especializado: as plataformas digitais podem tornar os processos mais rápidos e seguros, enquanto os correspondentes bancários e seus agentes desempenham um papel importante na orientação dos consumidores e na aproximação das instituições com diferentes regiões do país. Em vez de modelos concorrentes, esses canais devem funcionar de maneira complementar, ampliando as possibilidades de acesso e respeitando as preferências de cada cliente.

Essa combinação também está diretamente relacionada a outro desafio do setor: a capilaridade. Em um país de dimensões continentais, ampliar a oferta de serviços financeiros exige mais do que disponibilizar produtos em aplicativos. É necessário construir estruturas de distribuição capazes de alcançar municípios de diferentes portes, compreender as particularidades de cada público e oferecer soluções adequadas às suas necessidades. A expansão do crédito depende tanto da inovação tecnológica quanto da capacidade de chegar a quem precisa dele. Numa cidade de 15 mil habitantes, quem explica a um aposentado a diferença entre refinanciar e portar um contrato costuma ser o correspondente da praça, que ele conhece pelo nome, e não um aplicativo.

Nesse processo, simplificar a operação também vira diferencial competitivo. Instituições capazes de simplificar procedimentos, integrar diferentes canais e aprimorar seus mecanismos de análise conseguem construir operações mais escaláveis e sustentáveis. Isso não significa apenas crescer em volume, mas desenvolver estruturas que permitam atender mais consumidores sem comprometer a qualidade dos serviços prestados.

A confiança, por sua vez, continuará sendo indispensável. A ampliação do acesso precisa estar acompanhada de informações transparentes, proteção de dados e mecanismos de prevenção a fraudes. Esses elementos não devem ser vistos apenas como exigências regulatórias, mas como componentes essenciais de uma relação duradoura entre instituições financeiras e consumidores. Quanto mais simples e segura for a experiência, maiores serão as possibilidades de fortalecer esse relacionamento.

O mercado de crédito consignado tem diante de si uma oportunidade importante de evolução. A combinação entre novas modalidades, como o Crédito do Trabalhador, que levou o consignado aos empregados com carteira assinada, avanços tecnológicos e modelos de distribuição mais abrangentes abre espaço para que o produto alcance diferentes perfis de consumidores e continue contribuindo para a democratização do acesso a condições de financiamento mais competitivas.

Os juros baixos seguirão como um dos principais atrativos do consignado, mas o futuro do setor será construído por instituições capazes de entregar mais do que uma boa taxa. Será necessário reunir tecnologia, eficiência, proximidade e conhecimento das necessidades do consumidor em uma experiência cada vez mais acessível. Afinal, o verdadeiro potencial do crédito consignado não está apenas em oferecer dinheiro a um custo menor, mas em fazer com que essa oportunidade chegue a mais brasileiros, de maneira simples, segura e eficiente.

*Por Túlio Matos, CEO da iCred


Fonte: Portal Contábeis.