Enquanto cresce a pressão pelo adiamento da Reforma Tributária e surge uma possível PEC para 2028, uma questão merece atenção dos profissionais contábeis: será que o foco excessivo nas novas regras está deixando o planejamento tributário atual em segundo plano?
A Reforma Tributária pode até ser adiada para 2028. Mas existe uma coisa que não pode esperar: a necessidade dos seus clientes de pagar menos impostos, dentro da legalidade e com estratégia. E é justamente nesse ponto que precisamos fazer uma reflexão importante sobre o momento que a contabilidade está vivendo.
Nos últimos meses, boa parte das discussões do setor contábil tem girado em torno da Reforma Tributária. São mudanças na legislação, novos tributos, adaptações de sistemas, regras de transição e uma quantidade enorme de informações que os profissionais precisam acompanhar.
Tudo isso é necessário. Não existe dúvida. Mas será que, nessa corrida para compreender o novo sistema tributário, não estamos deixando de lado algo que já deveria fazer parte da rotina dos escritórios contábeis?
O planejamento tributário dos clientes que atendemos hoje.
Porque existe uma diferença muito grande entre conhecer as mudanças tributárias e transformar esse conhecimento em economia, eficiência e decisões estratégicas para as empresas.
E essa diferença pode determinar quais escritórios serão reconhecidos como parceiros estratégicos e quais continuarão sendo procurados apenas para cumprir obrigações.
Possível adiamento da Reforma Tributária para 2028 ganha força
Enquanto os profissionais contábeis se preparam para as mudanças previstas para 2027, uma nova movimentação começou a chamar a atenção nos bastidores jurídicos e tributários.
No final de outubro de 2026, entidades representativas dos setores jurídico, tributário e empresarial divulgaram uma carta aberta defendendo o adiamento da implementação efetiva da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para, no mínimo, 2028.
Entre as preocupações estão a indefinição de alíquotas, as dificuldades de adaptação dos sistemas, a necessidade de mais testes e os riscos de insegurança jurídica durante a transição.
No dia 4 de novembro, o movimento ganhou ainda mais força com manifestações da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também favoráveis à prorrogação de etapas da implementação.
E surgiu um novo elemento nessa discussão. Começou a circular o texto de uma possível Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende transferir para 2028 o início da cobrança da CBS e do Imposto Seletivo.
Segundo informações divulgadas em 4 de novembro, a deputada federal Any Ortiz (PP-RS) estava recolhendo assinaturas para apresentar a proposta. É importante destacar que, até aquela data, a iniciativa ainda estava na fase de coleta de assinaturas. Portanto, não se tratava de uma alteração aprovada ou de um adiamento confirmado.
Pelo calendário vigente, 2026 permanece como período de testes, enquanto 2027 marca o início da cobrança da CBS e a extinção do PIS e da COFINS.
Mas a pergunta que fica é: será que estamos diante de uma movimentação política capaz de alterar o calendário da Reforma Tributária?
Ainda não é possível afirmar. O fato é que a pressão pelo adiamento ganhou relevância e merece acompanhamento. Só que existe outro ponto nessa história que, para os escritórios contábeis, pode ser ainda mais importante.
O maior risco não é a Reforma Tributária ser adiada. É o planejamento tributário também ficar para depois
Imagine um escritório que passa meses estudando a Reforma Tributária, participa de treinamentos, acompanha atualizações legislativas e prepara sua equipe para as novas obrigações.
Tudo correto. Agora imagine que, durante esse mesmo período, um dos seus clientes continua recolhendo mais impostos do que deveria porque ninguém revisou seu enquadramento tributário. Percebe o problema?
O escritório está se preparando para uma tributação futura, mas pode estar deixando de identificar oportunidades de economia tributária no cenário atual.
E isso acontece com mais frequência do que muitos profissionais imaginam.
Existem empresas enquadradas no Simples Nacional que permanecem nesse regime durante anos, sem uma análise comparativa aprofundada.
Em muitos casos, a possibilidade de mudança só começa a ser discutida quando o faturamento se aproxima ou ultrapassa o limite permitido. Mas será que esse deveria ser o principal motivo para revisar o regime tributário?
Uma empresa não precisa ultrapassar o limite do Simples Nacional para que outro regime se torne mais vantajoso.
Dependendo da atividade, das margens de lucro, da estrutura de custos, da folha de pagamento e das particularidades da operação, o Lucro Presumido ou o Lucro Real podem apresentar resultados tributários mais favoráveis. E o contrário também pode acontecer.
É justamente por isso que o enquadramento não deveria ser tratado como uma escolha automática ou uma decisão revisada apenas quando surge alguma obrigação legal. Ele precisa ser analisado estrategicamente. Não basta considerar o faturamento.
É necessário avaliar a carga tributária efetiva, as possibilidades de aproveitamento de créditos, os custos de conformidade e os impactos financeiros de cada alternativa. É nesse tipo de análise que o profissional contábil demonstra o verdadeiro valor do seu conhecimento técnico.
Conhecer a Reforma Tributária será obrigação. Entregar estratégia continuará sendo diferencial
Existe uma questão que precisa ficar muito clara para quem atua na contabilidade. Estudar a Reforma Tributária não será, por si só, um diferencial competitivo permanente.
Todos os profissionais precisarão conhecer as novas regras. Todos precisarão adaptar processos. Todos terão que compreender a CBS, o IBS, os regimes específicos, as regras de creditamento e os impactos operacionais da transição.
Isso fará parte da responsabilidade técnica dos escritórios. Mas o cliente não está preocupado apenas em saber se o contador conhece a legislação. Ele quer compreender como as mudanças afetarão seus custos, suas margens, seus preços e a competitividade do seu negócio.
Mais do que explicar o que mudou, será necessário demonstrar o que deve ser feito diante dessas mudanças. E esse trabalho começa muito antes da entrada em vigor de qualquer novo tributo.
O profissional que já acompanha a estrutura tributária dos clientes, identifica distorções, realiza simulações e antecipa decisões terá condições muito melhores de conduzir a transição.
Por outro lado, quem limita sua atuação à atualização legislativa corre o risco de conhecer profundamente a reforma e, ainda assim, não conseguir transformar esse conhecimento em valor percebido.
A Reforma Tributária muda as regras do jogo. Mas não substitui a necessidade de saber jogar estrategicamente.
Se a reforma for adiada, o que realmente muda para os escritórios?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do momento. Se o Congresso aprovar uma eventual prorrogação para 2028, os profissionais contábeis terão mais tempo para adequar sistemas, revisar processos e orientar seus clientes.
Isso pode representar um alívio operacional importante. Mas também pode criar uma armadilha: a falsa sensação de que existe mais tempo para começar a trabalhar estrategicamente.
Porque o adiamento de uma obrigação não elimina a necessidade de avaliar a eficiência tributária das empresas. E aqui existe uma oportunidade relevante.
Os escritórios podem utilizar esse período de incerteza para aprofundar diagnósticos tributários, comparar regimes, revisar estruturas operacionais e desenvolver simulações que considerem tanto a legislação atual quanto os possíveis efeitos do novo sistema.
Especialmente no caso das empresas do Simples Nacional, as decisões não deverão se limitar à comparação tradicional entre regimes.
Será necessário considerar também os impactos da CBS e do IBS, as possibilidades de creditamento, as relações comerciais entre fornecedores e clientes e os reflexos sobre a formação de preços. Ou seja, a análise tributária tende a ficar ainda mais estratégica.
E quanto mais complexa for a decisão, maior será a importância de um profissional capaz de transformar informações técnicas em orientações concretas.
Mas atenção: enquanto não houver alteração efetiva da legislação, a preparação deve continuar considerando o calendário vigente. Planejar com cenários diferentes é prudência. Apostar em um adiamento ainda não aprovado é assumir um risco desnecessário.
O cliente pode trocar de contador antes mesmo de a Reforma Tributária começar
Existe um aspecto dessa discussão que merece atenção especial dos empresários contábeis. Enquanto muitos escritórios concentram seus esforços em estudar a reforma, outros profissionais podem estar se aproximando de empresas justamente porque conseguem identificar oportunidades de economia tributária que não estavam sendo exploradas.
E esse é um ponto sensível. A perda de um cliente nem sempre acontece porque o escritório cometeu um erro técnico ou deixou de cumprir uma obrigação. Em alguns casos, acontece porque outro profissional conseguiu apresentar uma visão mais estratégica sobre a operação.
Isso deve provocar uma reflexão sobre o posicionamento dos escritórios contábeis. Não se trata de abandonar a conformidade fiscal, que continua sendo indispensável.
Trata-se de compreender que cumprir corretamente as obrigações é apenas uma parte do valor que a contabilidade pode entregar. O conhecimento tributário precisa ser utilizado também para apoiar decisões.
E quem não fizer esse movimento poderá enfrentar dificuldades para demonstrar por que seus serviços são diferentes daqueles oferecidos por outros escritórios.
A Reforma Tributária pode mudar de data. A necessidade de estratégia, não
Ainda existem dúvidas sobre a possibilidade de adiamento da Reforma Tributária para 2028. As manifestações das entidades e a movimentação em torno de uma possível PEC mostram que a discussão ganhou força.
Mas, independentemente do que acontecer no Congresso, existe uma realidade que não vai mudar. As empresas continuarão precisando controlar custos, preservar margens, melhorar seus resultados e buscar eficiência tributária.
E os escritórios contábeis continuarão tendo um papel decisivo nesse processo. A grande questão é como cada profissional está se posicionando diante desse cenário.
Porque, no final das contas, não será apenas o domínio das novas regras tributárias que determinará a relevância do contador, mas sua capacidade de transformar conhecimento em decisões que façam diferença para os clientes.
Se a reforma começar em 2027, o planejamento será indispensável. Se for adiada para 2028, continuará sendo indispensável.
A pergunta que fica é: enquanto você se prepara para a tributação do futuro, quem está cuidando da eficiência tributária dos seus clientes no presente?
Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que o setor contábil precisa fazer neste momento.
Fonte: Portal Contábeis.